12 junho 2013


 Edição temática - Dia dos Namorados


SENTENÇA
No porta-retratos em cima da tua mesa de trabalho, na foto junto com teus filhos, não vou ser o cara que aparece sorrindo.

A MÃE NÃO SABE
Inúmeras evidências e uma tentativa de confissão que refutei, temendo ouvir o inevitável. Fiquei obcecado, por algum tempo, maquinando o ardiloso flagrante. Eu já sabia da existência de um homem misterioso em sua vida, só não imaginei que fosse a minha irmã.

SURPRESA
Chegou mais cedo e viu o carro do marido na garagem. Procurou dentro de casa, não encontrou ninguém. Ouviu barulho lá fora, no quartinho da empregada. Escutou atrás da porta, até o fim, sentindo um prazer indescritível. Mendonça não estava broxa, como imaginara.

SANDRA
O banho foi demorado. Cremes, chapinha no cabelo e a lingerie vermelha. Vinho, luz de velas perfumadas, música romântica. No quarto, enquanto esperava o namorado, fez poses ousadas e ficou se admirando no espelho. Chamava a atenção dos homens na rua e gostava de saber que era desejada. Naquela noite, preparou tudo com cuidados de gueixa e mais uma vez teve uma relação sem orgasmo.

SAGRES
Tornou-se cristão. Leal à Coroa, construiu naus e embarcou rumo ao Brasil. Traído e desterrado, encontrou abrigo numa tribo nativa. Conquistou a confiança dos índios, virou cacique e deflorou índias. A maioria morreu logo em seguida. Tido como amaldiçoado, mataram-no e devoraram seu corpo num ritual antropofágico. Nada sabiam sobre doenças venéreas e hábitos cristãos em bordéis lisboetas.

10 junho 2013


CANIL DOS ROTTWEILER

O patriarca saiu de casa no domingo para um tradicional almoço em família. Desta vez, lasanha na residência da caçula e sua companheira. O casal de arquitetas morava num condomínio de luxo, do outro lado da cidade. As três filhas, os dois genros e todos os netos esperaram em vão. 

O velho não apareceu, sequer telefonou ou mandou recado. Ligaram para o convencional; não atendeu. Tentaram o celular com dois chips; ambos os números fora de área, ou desligados. Não era a primeira vez que acontecia. De tempos em tempos, faltava ao compromisso. Jamais por esquecimento. 

Desde que ficara viúvo, no mínimo um domingo e todos os sábados do mês eram dedicados às pescarias e carteados, oportunidades que tinha para rever antigos colegas do Judiciário e ajudá-los a esvaziar garrafas de uísque dezoito anos. Em nenhum dos casos estaria incomunicável. 

Apesar de preocupados, serviram a comida sem o desembargador. Um dos genros ainda brincou com as cunhadas e a esposa, aludindo a uma possível namorada que o sogro teria arrumado, mas não queria trazer à presença da família porque a conquista regulava de idade com as netas. 

No dia seguinte, ao retornar de uma consulta médica no mesmo bairro em que o pai residia, a filha mais velha resolveu visitá-lo. Não o encontrou. A garagem estava vazia e ninguém respondeu ao tilintar da campainha. Os números do celular continuavam desligados, ou fora da área de cobertura. Naquele momento, percebeu que algo grave poderia ter acontecido. 

Ligou para a irmã do meio e pediu que acionasse o marido, policial civil. Embora afastado em função de um processo administrativo, um ano e meio encostado, mantinha contato quase diário com alguns colegas e eles poderiam ajudar naquela hora. As duas combinaram um ponto de encontro na casa das arquitetas e foram imediatamente. 

Àquela altura, a caçula e a companheira já estavam em polvorosa. Eram muito ligadas ao velho, que tinha um carinho especial pela namorada da filha, a quem costumava chamar de “meu genro predileto”. Os dois compartilhavam a paixão pela jardinagem e o cultivo de hortaliças. 

Reunidas as irmãs, fizeram da casa um centro de operações que incluía outros familiares e colegas do genro policial, pai de Jairzinho. Aos quatro anos, era atualmente o neto mais apegado. Apesar da tentativa dos adultos em preservá-lo, omitindo o que acontecia, não demorou a perceber que vovô desaparecera. 

Cresceu sem a companhia do avô materno. Foi adolescente, depois se tornou Jair e nunca, em nenhum momento de sua existência, desconfiou que não era para contar ao vovô sobre o dia em que viu papai e um amigo no canil dos rottweiler, com pá e picareta, abrindo um buraco bem fundo para enterrar dois sacos grandes, de plástico grosso e transparente, recheados com pacotes de açúcar sem marca.

03 junho 2013



PAI HEROI

Leopoldo Júnior teve um novo ataque de fúria na sala de aula. Desta vez, golpeou a testa de um coleguinha com o grampeador e enfiou dois grampos no cocuruto de outro. Gritaria, corre-corre. Houve criança que passou mal, por causa do sangue. Rastro de pingos grossos até a enfermaria. 

Foram socorridos e encaminhados ao pronto-atendimento do hospital mais próximo. Os cortes profundos requeriam sutura. Enquanto isso, na sala do coordenador de disciplina, o agressor aguardava seu destino. Até então, nunca tivera problemas de mau comportamento. Nas raras confusões em que esteve envolvido, geralmente no intervalo, sempre fora o agredido e pedia socorro aos professores que supervisionavam o pátio da escola. 

Tirava boas notas, de oito pra cima. Destacava-se nas ciências exatas e tinha grande facilidade com as línguas estrangeiras. Acima do peso, era preguiçoso na educação física, mas com algum esforço e nota dez nos trabalhos escritos obtia uma boa média final. Costumava dizer que seria engenheiro e político, como o pai. Contudo, desde que as coisas mudaram radicalmente, não tinha mais certeza sobre nada que dissesse respeito ao futuro. No momento, do alto de seus 11 anos, sua compreensão de mundo resumia-se aos sentimentos de raiva e vergonha.  

-XX-

No caminho de volta pra casa, Maria Letícia não repreendeu o filho. Fizeram o trajeto em silêncio, emburrados. Ela sabia o motivo da súbita mudança de comportamento que ele vinha apresentando. Duas brigas em menos de quinze dias. Recebeu uma advertência por escrito e agora dez dias de suspensão, além do aviso de que será expulso caso reincida. 

Enquanto dirigia, imaginava um discurso para educar Leopoldo Júnior. Falaria com ele mais tarde, hoje ainda, quando estivessem na sala de tevê ou juntos à mesa, durante uma refeição. Difícil fazê-lo entender, pedir que releve e conte até dez quando os coleguinhas falarem mal de seu pai. Criança diz coisas sem pensar, magoa sem querer. O caso ainda é muito recente, a imprensa fala a respeito todos os dias. Talvez o melhor a fazer seja tirá-lo da escola por um tempo, ou mandá-lo para o interior, com os avós, até que as coisas voltem ao normal.

-XX-

Mãe e filho estavam acomodados no sofá, debaixo do edredom, devorando guloseimas. Por razões óbvias, fazia algum tempo que ela não assistia aos noticiários, não ligava o rádio ou lia jornais, que mandava recolher e colocar no lixo. Naquele fim de tarde, após a novela, esqueceu-se de desligar a tevê na hora do noticiário. Por intermédio do Jornal Nacional, ela e o filho souberam. 

Preso no Uruguai o ex-deputado fulano de tal. Foragido da Justiça, o ex-secretário de estado e ex-presidente de estatais, investigado pela Polícia Federal e o Ministério Público, foi encontrado em Punta del Este, onde alugava uma mansão. No local, foram apreendidas duas malas de dinheiro, uma caixa de lança-perfume e pequena quantidade de cocaína. Segundo os delegados responsáveis pela prisão, a quantia total ainda não foi contabilizada, mas pode ultrapassar dois milhões e meio de reais. 

A reportagem foi ilustrada com imagens da captura. Aparecia o ex-deputado algemado, barbudo, cabelo desgrenhado, bermuda, camiseta e sandálias Havaianas. Com ele estavam duas jovens de vestido curtíssimo e salto alto. A câmera acompanhou tudo, até o momento em que entrou na gaiola do camburão e o comboio da polícia saiu em disparada. 

27 maio 2013

     

O CLIENTE, A PROSTITUTA POBRE 
OS POLICIAIS
v.01 conto inédito

O aeronauta aposentado retornava do casamento de uma sobrinha. Junto aos filhos, noras, genros e netos, formara uma alegre mesa na festa de recepção. Parentes e amigos reunidos para celebrar a felicidade dos noivos. Copa livre, música ao vivo. Os recém-casados percorriam o salão e posavam sorridentes para as tradicionais fotos com os convidados. 

Sozinho, bebeu uma garrafa de vinho chileno. Não entornou a segunda porque a filha interveio. “Chega de álcool! Hoje em dia não é como antigamente, quando o senhor dirigia borracho pela cidade e não acontecia nada. Agora é crime”, decretou a advogada da família. 

Foi embora sem discutir. Na garagem do clube, percebeu um movimento estranho. O carro estacionado ao lado do seu balançava. Chegou mais perto, ouviu gemidos, mas fingiu que não havia percebido e entrou rapidamente no automóvel. Deu a partida, arrancou e foi em direção à saída. Talvez por causa do vinho, dirigiu pensando na cena que vira de relance. Há muito não tinha sexo.

No caminho, lembrou-se da jovem que fazia ponto numa esquina do bairro. Com sorte, talvez estivesse disponível. Nunca experimentou, mas ouvira falar a respeito. Clodoaldo, outro viúvo aposentado que morava em seu prédio, companheiro de birita na padaria da esquina, mais de uma vez havia recomendado o serviço. “Rápido, barato e eficiente.”

-X-X-

Kátia Silene estava grávida do terceiro filho. O primogênito nasceu prematuro. Não vingou na incubadora. O segundo veio ao mundo saudável e foi entregue a uma prima que vivia no interior. Nunca mais teve notícias, nem quis saber. 

Aos 19 anos, ela e o companheiro moravam num casebre mal ajambrado. Instalados irregularmente numa área verde de um bairro nobre da Capital, junto com outras cento e cinquenta famílias, viviam em estado de vigília por causa da constante ameaça de despejo. 

Fazia ponto à noite, depois das dez, na esquina de uma avenida principal. No início trabalhava somente às sextas-feiras, sábados e domingos. Com o tempo, dominada pelo crack, começou a sair diariamente, às vezes em plena luz do dia.

-X-X-

Pedro e Paulo faziam a ronda de rotina quando avistaram o carro estacionado num local suspeito. O motorista deu a volta na quadra, desligou as luzes que identificam a viatura e eles chegaram sem chamar a atenção. O sedan de luxo estava parado debaixo de uma árvore, longe da luminosidade dos postes. Aquele ponto era manjado e eles sabiam de antemão o que rolava no interior do automóvel.

Fizeram a abordagem. Era um idoso com uma prostituta de rua. Ao perceber os policiais militares, ela abriu a porta do veículo e fugiu. Correu o mais que pôde, mas foi perseguida e levou uma rasteira. Franzina, atordoada no chão, joelhos escalavrados. Não houve dificuldade ao contê-la. Algemada, levada de arrasto pelos cabelos, foi atirada no banco de trás da viatura. Enquanto isso, o outro policial conversava com o cidadão. 

Após alguns minutos, chegaram ao entendimento. Cento e oitenta reais resolveram o mal entendido. Na verdade o velho trazia duzentos em cédulas de vinte, mas uma das notas fora dedicada à felação. Pedro e Paulo sabiam que a puta também estava com dinheiro, mas não pretendiam achacá-la. “Suor do trabalho é sagrado.” Fariam apenas o que estavam acostumados. 


Despacharam o velho, deram uma volta pelo bairro e retornaram ao mesmo local. Estacionaram a viatura debaixo da árvore, longe das luzes dos postes. Ligeiro, o policial que não estava ao volante saltou para o banco de trás. Fez o que tinha de fazer e trocou de lugar com o companheiro, mas o motorista não teve sorte. No meio do caminho, quase finalizando o serviço, foi interrompido por uma chamada de rádio da Central. E o resto da madrugada passou rançoso, mal humorado, resmungão. “Na próxima vez eu vou primeiro.”

23 maio 2013


A MORTE DA VETUSTA 
V.02


1

“É hoje que eu mato essa velha”, concluiu Antonio Carlos, no momento em que avistou sua escova de dentes mergulhada num copo, junto à dentadura da avó. Os dois moravam juntos há quase trinta anos, desde que os pais de Toninho faleceram num desastre de automóvel. Viúva, desocupada, Dirce tomou para si a educação do neto. E foi ensino rígido, quase espartano. Sonhava para ele um futuro brilhante, como padre ou militar. Toninho nunca simpatizou com a ideia do celibato, nem com a disciplina da caserna.


2

Eram dez horas da noite e tudo transcorria normalmente. Quando os pais da noiva perguntaram onde estava sua avó, inventou uma desculpa e disse que a velha não estava passando bem, tendo preferido ficar em repouso no quarto.  

Até o momento em que ela resolveu aparecer, todos estavam acreditando no mal-estar da vetusta. Quando surgiu de forma súbita e inconveniente, não houve desculpa plausível.  Nua, descabelada e com o corpo todo lambuzado em fezes, irrompeu na sala dando gritos histéricos. Rodopiando, como se dançasse uma valsa que só ela podia ouvir, fez a volta na sala e depois sentou à cabeceira da mesa. Aparentemente, todos agiram como se a visão daquela velha nua e cagada fosse a coisa mais natural do mundo. Como se em toda família houvesse uma avó tresloucada. Toninho não conteve a ira. Possesso, levantou-se da mesa e partiu aos berros pra cima da velha.

A mãe da noiva, muito solícita, resolveu ajudar enquanto a empregada não aparecia. Levantou-se, tirou o casaco e tentou cobrir a velha, que recomeçou a gritar, babando e batendo com a testa na quina da mesa. De repente parou, revirando os olhos.

Com a ajuda da empregada e do pai da noiva, conseguiram arrastá-la para o quarto. Chamaram um médico e deram-lhe um forte sedativo. Após o incidente, Toninho tentou explicar que era tudo mentira da velha. Nem a noiva acreditou.

A partir daquele dia Toninho mudou. Sua vida passou a ter uma única e grande expectativa. Sentia-se miseravelmente maligno ao desejá-lo. Não podia deixar de fazê-lo. Para ele, a única coisa que importava era a morte da vetusta. Desde que fora constatado que a velha tinha um câncer no intestino grosso, passou a acompanhar de perto a evolução do quadro clínico.

Apesar do câncer lhe corroendo, demonstrava ser um exemplo de que o corpo humano é capaz de realizar coisas incríveis. O tempo passava e os médicos iam lhe desenganando. Mesmo assim resistia. E não tardou a chegar o momento em que Toninho, cansado de esperar e gastando uma fortuna em remédios e hospital, resolveu dar um fim àquele sofrimento. Entrou no quarto da velha disposto a cometer o grande desatino. Encontrou-a coberta por um lençol. Uma técnica de enfermagem ia saindo e balbuciou pêsames.

Publicado originalmente em Contos de Oficina 10, 1993; EDIPUCRS.

21 maio 2013



REDENTORA

Paulo Dutra de Carvalho foi convidado para uma solenidade alusiva aos quarenta anos do golpe militar. Teria refutado, em outra situação, caso seu nome não estivesse sendo cogitado para concorrer à Prefeitura. Naquela época usava um codinome, como todo mundo. Frequentou cursos de guerrilha, assaltou bancos, trocou tiros no meio da rua e por muito pouco não conseguiu fugir para o Uruguai. Foi apanhado na estrada, a caminho do Chuí. O restante do grupo nem chegou a sair de Porto Alegre. Houve uma batida no aparelho. 

Foi interrogado no segundo andar do Palácio da Polícia, durante trinta e seis horas ininterruptas. Seviciado. Humilhado. Nunca contou, ninguém jamais soube. Depois de solto viajou para o interior, ficou escondido alguns meses, cruzou a fronteira e conseguiu embarcar para a Europa, de onde retornou com os outros exilados, quando houve a anistia. No degredo, durante longos anos, permaneceu incógnito e temeroso. Não conseguiu esquecer os momentos de pânico vividos no interior daquela masmorra, na esquina das avenidas Ipiranga e João Pessoa. Lá dentro, guardado numa cela escura, podia ouvir o grito lancinante dos outros presos. 

Socos. Pontapés. Sopapos no ouvido. Pau-de-arara. Maricota. Choques no saco. Afogamento. Dedos quebrados. Lembrou de tudo isso naquele dia, durante a cerimônia. Quarenta anos do golpe. Reportagens especiais, depoimentos emocionados. Não conseguiu segurar as lágrimas. A televisão filmou, os jornais fotografaram e os repórteres de rádio fizeram uma descrição detalhada, em voz baixa e solene. Roberto, Zé Flávio, Marina, Luciano e Luiz Antonio. Poderiam estar vivos, se não os tivesse delatado.

*Publicado originalmente em Contos para ler cagando – Edição independente, 2004.

17 setembro 2012

O TESTAMENTO DO SANT'ANA



Noite passada eu sonhei que o Paulo Sant’ana tinha nos deixado. Partira assim, de repente. Simplesmente não acordou pela manhã. A sua última coluna, magistral, ainda virgem de leitores, estava quentinha nas bancas, nas casas dos assinantes e na Internet. Suas derradeiras palavras, impressas em Zero Hora, fizeram jus à genialidade demonstrada ao longo dos anos, na obrigação do ofício diário. Apenas os familiares, os amigos mais íntimos e a direção da RBS sabiam do óbito. 

Perdemos nosso imortal sem fardão. Gênio idiota.  

E logo a má notícia foi disseminada. Era difícil acreditar. Ainda ontem ele estava ali, cheio de vida, no Jornal do Almoço e no Sala de Redação. Houve comoção geral em todo o Rio Grande. O governador decretou luto oficial de sete dias, gremistas anônimos eram vistos em prantos e até os colorados ficaram arrasados com aquela perda irreparável. Para eles, e também para os leitores, ouvintes e telespectadores, era como se o Sant’ana fosse um membro da família, alguém muito querido e insubstituível. 

Naquele dia foi como se o mundo estivesse girando mais devagar. Dentro dos ônibus, nos táxis, nas repartições públicas, nos bancos, nas lojas, na Rua da Praia, no Salgado Filho, na Rodoviária, nas calçadas, nas praças e em todos os lugares a morte do Sant’ana era o único assunto. Para os gaúchos, nem a despedida do Teixeirinha fora tão dolorida. 

Apesar do momento de dor, houve um pequeno incidente político por conta do velório. A Câmara Municipal, em detrimento do Grêmio, decidiu reivindicar o direito sagrado de prantear o ilustre. Foi preciso a intervenção do Arcebispo para encerrar a pendenga. 

Rapidamente, longas filas se formaram nas imediações do Estádio Olímpico. Caravanas vinham dos lugares mais recônditos e até o Julio Iglesias confirmou presença na despedida do amigo. A EPTC e a Brigada Militar, para controlar o trânsito na Azenha, tiveram de montar uma verdadeira operação de guerra. Do alto, no helicóptero da Gaúcha, o repórter Mauro Saraiva Jr passava boletins a cada quinze minutos. Pedro Ernesto Denardin fez questão de abrir a cobertura jornalística. Engasgado, a muito custo conseguiu ler um longo e emocionado editorial, corrigido às pressas pelo Nilson Souza. 

Foi durante o velório, em pleno gramado do Olímpico, que surgiu a notícia do Testamento. Falaram nas rádios, divulgaram na Internet e fizeram comentários nos corredores dos veículos de comunicação e agências de propaganda. Uma verdadeira campanha relâmpago foi desencadeada entre intelectuais e artistas. 

O que se dizia como verdade é que o Sant’ana, num dos seus momentos de gênio, relacionara uma lista com algumas pessoas que teriam condições de continuar produzindo todos os dias, com qualidade e sapiência, no espaço que ele herdara do saudoso Carlos Nobre. Diziam que ele teria convencido o Nelson Sirotski a levar a sério esse testamento, onde deixara instruções sobre como proceder na escolha de um substituto para o privilegiado espaço jornalístico.

Grandes nomes da escrita foram cogitados, inclusive do eixo Rio-São Paulo. Chegaram a dizer que o Augusto Nunes estava voltando a Porto Alegre e a RBS lhe daria outra casa no Jardim Isabel, com vista panorâmica para o Guaíba. Juremir, Assis Brasil, Tabajara, Liberato, David Coimbra, Martha Medeiros, Eliziário, Kenny Braga, Ibsen, Galvani, Lya Luft, Eduardo Bueno, Fogaça, Marcelo Rech, professor Ostermann, Luís Augusto Fischer, Cíntia Moscovich, Letícia Wierzhowski, Fabrício Carpinejar e vários outros eram tidos como virtuais herdeiros do Sant’ana. 

Aquele espaço nobre, lá no meu sonho, jamais fora preenchido por nenhum outro colunista. A perda do Sant’ana - verdadeira instituição, patrimônio cultural imaterial de todos os gaúchos - desencadeara o fim de um antigo hábito, enraizado no cotidiano de milhares de leitores. O jornal Zero Hora, depois do Sant’ana, nunca mais foi lido de trás para frente.

A propósito: A história do testamento nunca existiu. Foi uma grande sacanagem, bolada pelo último sobrevivente do legendário Grupo Ivanhoé. 

27 julho 2012

O URUTAU VERMELHO


Meu avô  Ulisses Câmara Villar, o urutau vermelho. O quadro lá atrás não aparece inteiro na foto, mas é uma legítima gravura soviética de Lenin









Verão de 1978. Florianópolis, Santa Catarina. Canasvieiras, Jurerê e Praia do Forte. Acampar era moda na época, vários equipamentos para campistas começavam a surgir no mercado. Desde barracas e acessórios, passando por reboques e trailers de vários modelos e tamanhos, até o cobiçado motorhome Turiscar equipado com o robusto e confiável motor Mercedes-Benz.

A família Belmonte viajou num Passat TS 1.6, marrom escuro cor de telha. Na estrada, devia ser estranho ver-nos passar, porque puxávamos um reboque verde-limão. E a mãe preparava lanches, garrafas térmicas com água gelada e refrigerante. Os adultos fumavam no carro e meu pai respeitava a sinalização de trânsito. Ainda hoje é assim, avesso às transgressões. Pode estar numa estrada deserta e sem fiscalização eletrônica. Não adianta. Se a placa indica cem quilômetros, andar a cento e quarenta é inconcebível. Logo, nossas viagens no sol a pino, e sem o ar-condicionado hoje tão comum na maioria dos carros, levavam mais tempo do que o necessário.

O grande mentor daquela fase naturalista foi meu falecido avô, Ulisses Câmara Villar, bastante acostumado à vida no mato. Habilidade forjada em incontáveis pescarias no rio Uruguai, nos países vizinhos e no Pantanal. De pesca marítima não entendia muito, mas sabia tudo de rios, e por sua incansável sede de conhecimento acabava se inteirando também a respeito da vegetação e fauna desses lugares.

Além das histórias de pescador e do gosto pela natureza, meu avô também nos deixou uma herança política. Liderança do antigo partidão (PCB) na fronteira-oeste, participou de vários episódios da política nacional. Até pouco tempo antes de falecer, aos 90 anos, ainda era procurado por jovens militantes em busca de experiência, historiadores e até jornalistas atrás de informações para livros e reportagens.

Ulisses nasceu em 1914. Em 1932, embarcou num trem cheio de soldados em direção a São Paulo. Não chegou a combater. A composição foi interceptada e quem não fugiu acabou preso. Seu primeiro discurso, em cima de um caixote, aconteceu numa estação férrea, orientado por Batista Luzardo. O experiente centauro dos Pampas, ao perceber o sentido das palavras pronunciadas pelo jovem orador, mandou que descesse imediatamente do púlpito. “Não diz isso, menino. Isso é comunismo!”

Quando houve o golpe de 64 meu avô era titular de um cartório de registro de imóveis em Uruguaiana. Foi cassado, exilado no Uruguai e, por saudades da família, retornou para entregar-se aos facínoras. Foi preso e cumpriu temporada na carceragem do exército, onde teria sido bem tratado, segundo ele.

Aos 65 anos, ainda forte como um Clint Eastwood, meu avô conduziu nossa claudicante iniciação ao mundo da pesca, e do que hoje se conhece como turismo de aventura. Anos consecutivos de veraneio em barraca, sempre no litoral catarinense.

Foram testemunhas dessas empreitadas, que incluíam ajudar na pesca de arrastão na praia dos Ingleses, e ganhar de brinde cações e tainhas, alguns cronistas conhecidos e até personagens que fizeram história no futebol. No camping dos Eucalíptos, em Jurerê, também veraneavam os jornalistas Mário Marcos de Souza, Pedro Macedo e o narrador esportivo Paulo Cagliari, entre outros.

Naquela Jurerê anterior à década de 80, ainda não existia a especulação imobiliária que transformou uma praia pacata em point de celebridades, e refúgio de alguns que fazem dinheiro de forma não-convencional. O balneário alagava nos dias de chuva, as pitangueiras tomavam conta de tudo e os argentinos já eram assíduos no pedaço. O acesso à Ilha do Francês era liberado e a fortaleza de São José da Ponta Grossa ainda estava abandonada, praticamente em ruínas.

Lembro que fiquei muito impressionado quando, pela primeira vez, entrei nas celas lúgubres daquele prédio cuja construção teve início em 1740. A obra de função militar foi erguida a partir de um projeto do Brigadeiro José da Silva Paes, que apenas três anos antes construíra o Forte Jesus-Maria-José, onde teve origem a cidade de Rio Grande. Ainda hoje, quando visito o local, sinto uma atmosfera estranha naqueles cubículos que já foram habitados por prisioneiros, entre o final do século dezoito e meados do século dezenove.

Quem tinha um chalé de madeira na estrada de acesso à praia, rente ao asfalto, mas com um campo de futebol praticamente nos fundos de casa, era o ex-goleiro do Internacional, e depois técnico de futebol, Carlos Gainete. Lembro de ver meu pai jogando peladas muito disputadas, tipo rachão mesmo, com a participação do também ex-jogador Saul, cunhado de Gainete que defendeu os clubes Guarani de Bagé e Vasco da Gama.


*Este trecho é uma das três partes do texto que publiquei no livro "Farofa com Pimentão e outras histórias", editado em 2009 por José Luiz Prévidi.

20 julho 2012

DIÁLOGO DE SURDOS

Duzentos e quarenta e sete ficcionistas nascidos de 1972 para cá enviaram textos para concorrer à seleção da revista Granta – Os melhores jovens escritores brasileiros. Outros autores preferiram não participar do concurso, por discordar dos critérios ou motivos pessoais. Ao fim, 20 nomes foram escolhidos com mérito e legitimidade pelo qualificado corpo de jurados constituído pela revista. Merecem os parabéns.

O júri montou uma dentre as listas possíveis. E qualquer relação comportaria omissões. Simplesmente porque a nova cena literária brasileira, pela variedade temática e formal, não se esgota em duas dezenas de nomes.

A seleta da Granta é, portanto, um indicador em meio a vários outros, como os prêmios literários ou os eventos que se multiplicam cada vez mais ao longo do país. Na falta de um público leitor expressivo – este, sim, o nó da questão –, os jurados e as curadorias acabam fazendo o trabalho de mapeamento. Com inclusões e exclusões, segundo premissas próprias. Nada exatamente esdrúxulo.

No entanto, bastou a revista chegar às livrarias e teve início uma polêmica tão vazia quanto enfadonha. O debate estacionou na tola dicotomia que opõe o discurso ressentido a resenhas chapa branca. De um lado, críticas pesadas aos autores eleitos e a seus textos, quando não aos jurados, quase sempre sem o cuidado básico da leitura prévia – isso depois das regras aceitas e do jogo jogado. Do outro, análises generalistas para sustentar uma legitimação apressada da qualificação “os melhores”.

O essencial – a produção recolhida pela Granta – ficou até agora de fora da discussão. Não surpreende. O gosto pela maledicência é uma característica tão patente dos escritores quanto a paixão pela palavra. Em A vida literária no Brasil – 1900, Brito Broca já comentava as idiossincrasias desse pequeno e estranho universo. Stella Rimington, autora consagrada de romances policiais e ex-presidente do júri do Booker Prize, afirmou no ano passado: "Pensei que o mundo da inteligência era o lugar para a intriga. Mas isso foi antes de conhecer o mundo editorial". Ou seja, não há novidade alguma na recente fumaça. Que, entretanto, turva a visão, impedindo que se distinga o que é periférico e o que é central.

Bienais, festas, antologias são importantes para divulgar a obra de um autor, mas guardam uma relação esparsa com aquela centelha que o levou, um dia, a começar a escrever ficção. Se apagada essa fagulha, restará o acessório. E ficaremos todos, num diálogo de surdos, repetindo o verso único de Francisco Alvim no poema Luta literária, que virou o hit da atual querela: “Eu é que presto”. 

Texto de Marcelo Moutinho, escritor. Foi um dos 247 concorrentes no concurso da revista Granta*

14 maio 2012




Avança, Brasil!

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso retornou à cena política, voltou a ser protagonista e propôs debate sobre um tema que não queremos discutir, nem estamos aptos a fazê-lo. No Brasil conservador não há clima para regulamentar o uso da maconha, nem para fins medicinais. Não sabemos ainda qual é o modelo ideal a seguir, baseados no que já existe em países como Holanda, Espanha, Portugal e até Argentina, que recentemente descriminalizou o consumo.

Do ponto de vista toxicológico, dependências por tabaco e álcool causam mais vítimas do que entre os usuários de cannabis. Aliás, não existe muita estatística, simplesmente porque ninguém morreu ao fumar maconha. O que se diz à exaustão, perpetuado como verdade absoluta, é que a droga serve de trampolim às substâncias mais pesadas. E pouco se fala sobre o usuário, que já veio “de fábrica” pré-configurado à dependência química.

Somos hipócritas. Tradição, família e propriedade ilustram a pintura da casca, protegida em verniz. Por dentro, quase todo lar brasileiro tem alguém com aquele tipo de comportamento que condenamos e queremos esconder. Alcoólatra, tabagista, cônjuge infiel, jogador, homossexual, maconheiro e assim por diante. Gente é assim mesmo.

Em Porto Alegre, atualmente, polícia e prefeitura fazem ação conjunta para coibir o uso de droga em locais públicos. No Parque Marinha do Brasil e perto do Gasômetro, à beira do Guaíba, centenas de pessoas convivem diariamente ao pôr-do-sol. E muitos fumam maconha. Os dois locais, ao contrário do que se imagina, nada têm a ver com a cracolândia paulista. Não há violência, miséria ou decadência. O que acontece ali é confraternização. Para eles, fazer uso da maconha é patrimônio imaterial. Mal comparando, a situação é muito similar à tradicional roda de chimarrão.

Por enquanto, não há motivos para preocupação. Quem é contrário à descriminalização e regulamentação do uso pode ficar tranquilo. Não estamos prontos a avançar, e com certeza não o faremos nos próximos vinte anos, apesar de Fernando Henrique Cardoso. Sociólogo, cientista político, professor emérito, ex-senador, ex-ministro e ex-presidente, não teve coragem de propor o debate em seu primeiro mandato, porque perderia votos e provavelmente a reeleição. Agora, ressurge mais sábio e polemiza. No mínimo, renderá um trocadilho com as iniciais FHC e THC (Tetraidrocanabinol, substância psicoativa da maconha).